10. CULTURA 22.5.13

1. CINEMA - O DONO DA HISTRIA
2. HUMOR - DE ONDE VEM O "MUSSUNS"
3. LIVROS - SEXO NA CASA BRANCA
4. EM CARTAZ  LIVROS - EM DEFESA DA POESIA
5. EM CARTAZ  DVD - TRAIO INCENTIVADA
6. EM CARTAZ  MSICA - NINGUM SEGURA MARCELO D2
7. EM CARTAZ  CINEMA - O PASSADO CONDENA
8. EM CARTAZ  ARTE - TUDO QUE O CU PERMITE
9. EM CARTAZ  AGENDA - CAT POWER/O INTERIOR EST NO EXTERIOR/HORSES HOTEL

1. CINEMA - O DONO DA HISTRIA
Com Jos Wilker e Marcelo Serrado, o Brasil aposta em uma tendncia j consolidada nos EUA: levar para o cinema personagens do sucesso na tev
Michel Alecrim

O enredo gira em torno de uma me sofrida e da luta cotidiana de seus inmeros filhos, mas  ele, um bicheiro bem-humorado, quem faz mais sucesso e rouba a cena. Em outra novela que trata de amores e crimes, um hbrido de mordomo gay, cabeleireiro e bajulador da vil  quem conquista o pblico. Em ambos os casos, os personagens saltaram das telenovelas originais em que nasceram e se tornaram protagonistas de filmes  ou seja, os donos da histria. A tendncia  nova no Brasil, mas nos EUA  conhecida como spin off (algo que deriva de outra coisa). Define empresas de tecnologia que geram filhotes ou longas e sries televisivas com protagonistas migrados de outras produes. Sintonizado com o fenmeno, o Brasil aposta no filo com dois ttulos: Giovanni Improtta, em cartaz, e Cr, cujas filmagens comearam na semana passada.

NO CENTRO DA TELA - Jos Wilker no filme "Giovanni Improtta" (acima) e Marcelo Serrado como "Cr": carisma para comandar um enredo independente

Giovanni Improtta tem o mesmo nome do bicheiro carioca que ficou famoso em Senhora do Destino, novela de Aguinaldo Silva exibida pela Rede Globo entre 2004 e 2005. Contribuiu para o seu carisma a inspirada interpretao de Jos Wilker que, naturalmente, assumiu o papel outra vez. O ator assina a sua primeira direo em cinema e equilibra a comdia e a crnica social ao mostrar as agruras do contraventor que tenta legalizar o jogo e se aliar a um poltico evanglico. Aos 66 anos, Wilker diz que o seu objetivo  flagrar o novo momento do Pas e destacar a emergncia de sua nova classe mdia, vida por insero: Giovanni pertence ao grupo de pessoas que adquiriram mais poder econmico e ainda assim so vistas com preconceito pela sociedade tradicional, diz ele.

Vivido por Marcelo Serrado, h dois anos Cr ajudou a elevar o ibope da novela Fina Estampa, tambm de Aguinaldo Silva. Sua atuao impressionou o cineasta Bruno Barreto, que volta e meia se dedica  comdia e vai dirigir Cr. Ele foi o personagem mais popular da tev nos ltimos anos, porque  como todos ns brasileiros: eufricos e melanclicos ao mesmo tempo. O produtor Augusto Cas v o fenmeno com olhar positivo: Essa parceria entre a tev e o cinema no vai parar por aqui. Ele contradiz, no entanto, a regra aceita de que o sucesso de um produto  garantia de que o mesmo acontea com o spin off.
O perigo  modificar demais o original e acabar criando um Frankenstein.


2. HUMOR - DE ONDE VEM O "MUSSUNS"
A linguagem usada pelo ex-trapalho Mussum torna-se cada vez mais replicada e integra at tese acadmica. O que pouca gente sabe  que seu modo de falar j existia h quase um sculo

Embora tenha morrido h quase duas dcadas, o humorista e sambista Mussum, que integrou o quarteto Os Trapalhes, continua popularssimo  e surpreendentemente, junto a um pblico que sequer assistiu no cinema e na tev s suas aventuras ao lado dos parceiros Didi (Renato Arago), Ded (Manfried Santana) e Zacarias (Mauro Gonalves). Mussum  estampado em camisetas e d nome a uma festa temtica que acontece no Rio de Janeiro e em So Paulo. Ele se mantm em evidncia no pelos trabalhos que o consagraram, mas pela apropriao da maneira de falar do seu personagem nos chamados memes: os cartes que so replicados de forma viral nas redes sociais, comentando celebridades e assuntos do momento. Obama polariza as atenes?  chamado de Obamis. O super-heri vivido por Robert Downey Jr. arrebenta nas bilheterias? Passa a ser Homem de Ferris. No comercial de lanamento do New Beatle, o comediante aparece, em um truque digital, dizendo: Cacildis,  o fusquis. O mussuns no  onda contempornea, mostra o doutor em artes cnicas Andr Carrico, que acaba de defender na Unicamp a tese Os Trapalhes no Reino da Academia: Revista, Rdio e Circo na Potica Trapalhnica: ele resgata um tipo de fala popular que remonta aos anos 1910, no Rio de Janeiro.

Vindo de um tempo em que o politicamente correto no existia, Antonio Carlos Bernardes Gomes, apelidado Mussum pelo ator e tambm comediante Grande Otelo  vivia agarrado a uma garrafa de m (gria para cachaa) e sempre finalizava as palavras com is. Nego  teu passadis era um dos bordes que utilizava nos programas e filmes, para rebater as piadas dos amigos trapalhes, que o chamavam de galinha de despacho. Pouca gente sabe que ele trabalhou no teatro de revista. Essas peas sempre traziam a personagem da mulata pernstica, que tinha esse linguajar, diz Carrico. O pesquisador identificou nas comdias do passado a recorrncia de palavras como futis (corruptela para footing) ou palezis (do francs palais ), provando que foi da que veio a inspirao de Mussum, mais tarde integrante do grupo Os Originais do Samba. Essas expresses parodiavam e satirizavam o linguajar das madames, adeptas dos termos estrangeiros. Os papis das mulatas eram, na maior parte das vezes, de empregadas, e certamente reproduziam algo que acontecia na realidade, afirma o pesquisador, que foi buscar exemplos em espetculos como Forrobod (1911) e Terra Natal (1919).

Outra descoberta: quem sugeriu a Mussum usar tais expresses foi o colega Chico Anysio, que o dirigia na Escolinha do Professor Raimundo. Sargento da Aeronutica, Mussum tornou-se artista participando como msico no teatro de revista. Por ser militar, se escondia atrs dos cenrios quando aparecia um oficial. Uma vez derrubou um grande painel. Foi quando Grande Otelo o chamou de Mussum, um tipo de peixe negro sem escamas. Ele no gostou, mas o apelido pegou. Nascia o personagem  e, com ele, o mussuns.  


3. LIVROS - SEXO NA CASA BRANCA
Livro narra em detalhes os maiores escndalos envolvendo presidentes e primeiras-damas dos EUA e mostra que as traies conjugais existem desde a independncia do pas 
Ivan Claudio

Bem antes do escndalo envolvendo a estagiria Monica Lewinski e o presidente americano Bill Clinton, em 1998, os seguranas do governo j sabiam de seus encontros furtivos. Criaram at um tipo de aposta: quanto tempo Clinton levaria para ir da rea residencial da Casa Branca at a ala oeste onde ficam as salas de despachos  isso era cronometrado aps a chegada de Monica aos domingos. A traio se mostrava to evidente que o vice-chefe do Estado-Maior, Harold Ickes, uma vez se juntou a um oficial do servio secreto e resolveu fazer uma surpresa ao seu superior. Bateu na porta do Salo Oval gritando: Senhor presidente! Senhor presidente! Clinton saiu correndo  e levantando as calas  por uma porta, enquanto Monica desaparecia pela outra. O episdio est contado no livro Sexo na Casa Branca (Gutenberg), de autoria do historiador David Eisenbach e do editor da revista pornogrfica Hustler, Larry Flynt. Em 300 pginas, a dupla narra em detalhes a intimidade de chefes de Estado, primeiras-damas e assessores dos EUA num mapeamento surpreendente pela credibilidade das fontes.

O monicagate  um dos casos mais recentes, mas o entra e sai de amantes na sede do governo vem de longe. Durante o governo de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), por exemplo, o prdio serviu de residncia para duas mulheres sem nenhuma ligao com a famlia: Marguerite LeHand e Lorena Hickok. A primeira saltou de secretria  primeira-dama informal, prestando ainda servios de enfermeira  Roosevelt no conseguia andar devido a uma poliomielite. A outra convidada era uma jornalista com passagem pelo jornal The New York Times, que manteve por 30 anos um romance com Eleonor, a mulher do presidente. Sempre que acontecia um encontro oficial no Salo Vermelho com o Comit Nacional Democrata, do qual Lorena fazia parte, a primeira-dama a cumprimentava com efuso. Fazia isso como se no me visse h um ms, apesar de termos tomado caf da manh juntas, escreveu a jornalista em suas memrias. O presidente e a primeira-dama sabiam das respectivas traies e as incentivavam, j que nem sequer dormiam juntos desde que Roosevelt cara de amores pela secretria da esposa, Lucy Mercer. Antes de morrer, ele destinou a Lucy metade de sua herana. As crianas podem cuidar de si mesmas, teria dito.

A forma como o staff governamental tratava tais aventuras amorosas muda de acordo com o mandato, em um cerimonial de regras elsticas. O humor, contudo, est sempre presente. Durante a gesto de John Kennedy (1961-1963), que sentia enxaquecas caso no fizesse sexo diariamente  e com uma mulher diferente , duas funcionrias de sua predileo ficaram conhecidas pelos codinomes Conversa e Fiada. Jacqueline Kennedy sabia dessas e de outras conquistas, mas s se sentiu humilhada  e com toda razo  quando sua irm Lee contou a ela sobre as escapadas do marido com a atriz Marilyn Monroe. Retribuiu na mesma moeda: viajou para a Itlia e passou mais de um ms em companhia do empresrio Gianni Agnelli, dono da Fiat.

Baseado em documentos guardados na Biblioteca do Congresso e nos museus dedicados  vida de presidentes, o livro mergulha no passado atrs de indiscries  e encontra bastante. Identifica um poltico gay a conduzir o pas, James Buchanan, que viveu 16 anos com o sulista Rufus King, de ideologia escravagista. Andrew Jackson, o stimo presidente dos EUA, chamava-os de Tia Fancy (King) e Senhora Nancy (Buchanan).

Entre os chamados fundadores da nao, Abraham Lincoln permanece o mais enigmtico em sua vida privada. Os autores lanam suspeita sobre a sua relao com um amigo de juventude, o fazendeiro Joshua Speed, de quem foi scio  a partida dele deixou Lincoln devastado. J na Presidncia, ficou amigo do capito David Derrickson, a quem poupou de ir ao campo de batalha durante a Guerra Civil. Nessa poca, as ms lnguas j comentavam sobre o assunto delicado. A filha de um ministro chamada Virginia Woodbury Fox escreveu: H um soldado Rabo de Cervo (nome da brigada de Derrickson) que anda com ele (Lincoln) e, quando a sra. L. no est em casa, dorme com ele. Isso foi o que Virginia anotou em seu dirio em 16 de novembro de 1862. Os autores defendem que a vida privada (a sexual includa) de polticos determina os caminhos de um pas. Em certos casos, sim. Mas a generalizao  um exagero.


4. EM CARTAZ  LIVROS - EM DEFESA DA POESIA
por Ivan Claudio e Aina Pinto

Um verso ecoa ao longo do quinto livro de poesia de Felipe Fortuna chamado A Mesma Coisa (TopBooks): Todo poema toca ao menos no gatilho. E de repente contaminada a vida esparsa.  da prpria poesia  sua lngua libertria, seus impasses e os desafios para quem a pratica hoje  que se ocupa a obra. No mais extenso dos poemas, que d ttulo ao livro, Fortuna trata da repetio, da impostura e de como versejar dialogando com a tradio  o que faz pensar no eu  um outro de Arthur Rimbaud e no fingidor de Fernando Pessoa. O Suicida enumera poetas que apertaram o gatilho no confronto das palavras com a realidade, como Sylvia Plath, Alfonsina Storni e Vladimir Maiakovski. Contra a Poesia faz justamente a sua defesa. Nossa sociedade est baseada na imitao, na cpia e no plgio. A busca da originalidade no  original na medida em que se imita essa busca, diz Fortuna. Na vertigem de sua prosa potica, ele mostra quo musical  a cadncia de seus versos.

+5 poetas contemporneos
Manoel de Barros (foto)
 O mais aclamado poeta brasileiro vivo s teve sua obra amplamente divulgada a partir dos anos 1980. Venceu dois prmios Jabuti

Alexei Bueno
 Comeou a publicar em 1981. Est lanando a coletnea 500 Anos de Poesia, com tradues de sua autoria

Paulo Henriques Britto
 Seu livro mais recente  Formas do Nada, de 2012. Com Macau venceu o Prmio Portugal Telecom

Eucana Ferraz
Foi premiado com o livro Assombro.  organizador das novas edies dos poemas de Vinicius de Moraes

Antonio Ccero
 Ficou conhecido como letrista das canes de sua irm, Marina Lima.  autor de Guardar e A Cidade e os Livros


5. EM CARTAZ  DVD - TRAIO INCENTIVADA
por Ivan Claudio e Aina Pinto

O cineasta dinamarqus Lars Von Trier j foi chamado de nazista e de misgino. Mas antes de dar declaraes desastradas e optar pela violncia esttica, ele realizou em 1996 o drama Ondas do Destino, tido como o seu melhor trabalho: Emily Watson interpreta uma mulher incentivada pelo marido a procurar amantes depois que ele sofre um acidente e se torna paraplgico.


6. EM CARTAZ  MSICA - NINGUM SEGURA MARCELO D2
por Ivan Claudio e Aina Pinto
O rap quer ser aceito socialmente. Nos EUA, msicos como Jay-Z e Kanye West rimam sobre trechos de clssicos da soul music como forma de se inclurem na linha evolutiva do som negro. No Brasil, Marcelo D2 recorre a conhecidas msicas da MPB com o mesmo propsito. No CD Nada Pode Me Parar ele usa orquestraes do Som Imaginrio, o refro da msica Escravos de J (Milton Nascimento e Fernando Brant, na verso de Dom Um Romo) e a abertura de Abre Alas (Ivan Lins/Vitor Martins) para incrementar seu canto falado. Como j fez no passado, interpreta outro samba, Na Veia, de Rog e Arlindo Cruz. A gravao foi feita no histrico Electric Lady Studios, criado por Jimi Hendrix, em Nova York.


7. EM CARTAZ  CINEMA - O PASSADO CONDENA
por Ivan Claudio e Aina Pinto
Em Sem Proteo (estreia na sexta-feira 24), o diretor Robert Redford apresenta duas questes. Uma pessoa deve defender opinies nas quais j no acredita? At quando algum que mudou completamente de vida deve ser punido por atos do passado? Tudo isso guia a histria do advogado Jim Grant (Redford), um ex-ativista contra a Guerra do Vietn acusado de assassinato. Ele passa a atuar defendendo os direitos civis, mas tem a identidade antiga revelada por um jornalista (Shia LaBeouf).


8. EM CARTAZ  ARTE - TUDO QUE O CU PERMITE
Pesquisa fotogrfica, apropriao e reelaborao esttica se cruzam nos recentes trabalhos do pintor, designer e cineasta Ricardo van Steen expostos at o dia 15 de junho na Galeria Zipper, em So Paulo. A srie Noir, feita em aquarela, tem como tema o cu, componente clssico da pintura  sua escala e tonalidade, por exemplo, determinaram escolas e estilos. Por meio do Google, Van Steen selecionou imagens feitas alm das nuvens, privilegiando o formato quadrado, cujo recorte veio de seu trabalho anterior com polaroides. Ao se apropriar do olhar annimo e imprimir um novo sentido s imagens, ele questiona a figurao e amplia a gama de metforas que tm o cu como inspirao.


9. EM CARTAZ  AGENDA - CAT POWER/O INTERIOR EST NO EXTERIOR/HORSES HOTEL
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio e Aina Pinto

CAT POWER
(So Paulo, Cine Joia, 21/5)
A cantora americana apresenta canes do recente lbum Sun, gravado durante trs anos

O INTERIOR EST NO EXTERIOR
(So Paulo, Casa de Vidro e Sesc Pompeia, at 26/5)
5 artistas e arquitetos mostram obras inspiradas na antiga residncia do casal Lina e Pietro Maria Bardi

HORSES HOTEL
(Rio de Janeiro, Oi Futuro Flamengo, at 5/6)
A pea de Alex Cassal retrata o ambiente em que surgiu o movimento punk. Direo de Amora Pra e Paula Leal

